Cólicas que limitam atividades, dor pélvica persistente ou dor para evacuar, urinar ou ter relações merecem avaliação. Esses sintomas podem estar associados à endometriose, mas não confirmam a doença sozinhos.
A endometriose é uma condição crônica em que um tecido semelhante ao endométrio cresce fora da cavidade uterina e pode provocar inflamação e cicatrizes. A Organização Mundial da Saúde estima que ela afete aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo e informa que o diagnóstico pode levar, em média, de 4 a 12 anos em diferentes contextos. A variação dos sintomas e a normalização da dor menstrual contribuem para atrasos.
O que é a endometriose?
O endométrio é o tecido que reveste a parte interna do útero. Na endometriose, tecido semelhante a ele pode aparecer nos ovários, nas tubas uterinas, no peritônio e, em alguns casos, próximo ao intestino ou à bexiga. A localização e a extensão das lesões variam de pessoa para pessoa.
A doença pode causar inflamação, aderências e cistos ovarianos chamados endometriomas. A relação entre as lesões e a dor não é igual para todas: a intensidade dos sintomas não permite prever, por si só, a extensão da doença, e algumas pessoas têm poucos sintomas.
Principais sintomas da endometriose
Os sintomas variam bastante. A presença, a intensidade ou a ausência de dor não mostram, isoladamente, se a doença está presente nem o quanto ela se estendeu.
1. Cólica menstrual intensa ou progressiva
Cólicas que começam antes da menstruação, duram vários dias ou atrapalham trabalho, estudo e atividades cotidianas merecem investigação. Nem toda cólica forte é endometriose, e sangramento fora do período não é um sinal específico da doença.
2. Dor pélvica persistente
A dor ou sensação de peso no baixo ventre pode ocorrer durante a menstruação ou em outros momentos do ciclo. Dor pélvica persistente também pode ter outras causas e precisa ser avaliada no contexto de cada pessoa.
- Sensação: Uma sensação de peso no baixo ventre ou dores irradiadas para as coxas e região lombar.
- Registro: Anotar quando a dor aparece, quanto dura e sua relação com o ciclo pode ajudar na consulta.
3. Dor durante ou após a relação sexual
A dor profunda durante ou após a penetração pode ocorrer na endometriose, mas também tem outras causas. Se acontece com frequência, converse com uma profissional de saúde; não é necessário suportar a dor nem sentir vergonha de relatá-la.
Muitas vezes é descrita como uma dor "profunda", que ocorre no momento da penetração total. Isso gera um ciclo de ansiedade e evitação do sexo, impactando a saúde mental e o relacionamento do casal.
4. Dificuldade para engravidar
A endometriose pode estar associada à infertilidade, mas não significa que a gravidez seja impossível. Se houver dificuldade para engravidar ou preocupação com a fertilidade, uma avaliação individual ajuda a discutir opções sem presumir que a doença seja a única causa.
5. Dor ao evacuar e sintomas intestinais
Dor ao evacuar (disquesia), constipação, diarreia ou distensão abdominal podem ocorrer e, em algumas pessoas, pioram perto ou durante a menstruação. Esses sintomas também podem ter causas digestivas não relacionadas à endometriose. Sangue nas fezes deve ser avaliado por um profissional.
6. Dor ao urinar e sintomas urinários
Dor ou ardência ao urinar, urgência e, menos frequentemente, sangue na urina podem ocorrer quando há acometimento urinário. Sintomas urinários, especialmente sangue na urina, precisam de avaliação para investigar endometriose e outras causas.
Outros sintomas relatados
Fadiga e dor lombar podem acompanhar a endometriose, mas são sintomas inespecíficos. Dor irradiada para glúteos ou pernas também merece avaliação, sobretudo quando é persistente, piora ou vem acompanhada de fraqueza ou alteração de sensibilidade.
Cólica menstrual ou sinal para investigar?
| Aspecto | Cólica menstrual que pode ocorrer | Sinal para conversar com um profissional |
|---|---|---|
| Intensidade | Pode variar de pessoa para pessoa e de um ciclo para outro. | Dor intensa, progressiva ou que não melhora com as medidas habituais. |
| Momento | É comum ocorrer perto do início da menstruação. | Pode começar antes, durar vários dias ou aparecer fora do período menstrual. |
| Impacto | Em geral, a rotina pode ser mantida. | Faltar ao trabalho ou estudo, ou deixar de realizar atividades, é importante relatar. |
| Outros sintomas | Cólica sem outros sintomas importantes também pode ocorrer. | Dor na relação, ao evacuar ou ao urinar, especialmente quando relacionada ao ciclo. |
A comparação ajuda a organizar o que contar na consulta, mas não confirma nem exclui endometriose.
Como é feita a investigação?
A investigação começa pela conversa sobre sintomas, ciclo menstrual, histórico de saúde e impacto na rotina, seguida de avaliação clínica. O Papanicolau é importante para rastrear alterações no colo do útero, mas não diagnostica endometriose.
Exames que podem fazer parte da investigação
- Ultrassonografia transvaginal: quando realizada por profissional experiente em mapeamento de endometriose, pode identificar lesões e avaliar estruturas pélvicas. O preparo intestinal pode ser indicado conforme o protocolo e a suspeita clínica, mas não é obrigatório em todos os exames.
- Ressonância magnética da pelve: pode ajudar a mapear a doença, especialmente quando há suspeita de acometimento profundo ou quando é necessário complementar a avaliação.
- Avaliação especializada: exames de imagem normais não excluem todos os tipos de endometriose. A laparoscopia pode ser considerada em situações selecionadas, mas não é obrigatória para toda pessoa antes de iniciar o cuidado.
Quando buscar atendimento rápido
- Dor pélvica súbita e intensa, desmaio, febre ou piora importante do estado geral;
- Dificuldade ou incapacidade de urinar ou evacuar;
- Sangue na urina ou nas fezes, que precisa de avaliação profissional, sobretudo se for recorrente ou vier acompanhado de dor intensa.
Próximos passos
Se você se identificou com esses sinais, procure uma ginecologista ou um serviço de saúde para avaliar as possíveis causas e decidir os próximos passos. Um diário com datas, intensidade da dor, sintomas associados e impacto na rotina pode ajudar. Não é preciso esperar que a dor se torne incapacitante para pedir orientação.
Dor intensa não deve ser banalizada, mas só uma avaliação pode investigar sua causa. Outras condições ginecológicas, urinárias ou digestivas também podem produzir sintomas semelhantes.